FEEDBACK / MINI-TESTAMENTO

Hoje foi o dia de reunião com a coordenação da escola. Ontem havíamos deixado a carta para a professora. Queria que ela soubesse o que eu tinha sentido. E, como minha filha ficou doente logo após o episódio, eu não tinha conseguido uma oportunidade para conversar pessoalmente.
Chegando na reunião, relatamos o nosso descontentamento pelo dia da consciência negra não ter sido tratado com a turminha do maternal. Que temos absoluta certeza de que as crianças já conseguem sim, serem expostas às suas diferenças físicas e já conseguem refletir em relação a isso. Não tocamos no assunto do que eu vi acontecer em sala de aula. Não queria prejudicar a professora, pessoa pela qual tenho carinho e que quero bem. A coordenadora nos ouviu. Depois nos contou: a professora havia mostrado a minha carta para ela. Estava arrasada pelo mal-entendido. Explicou toda a situação:
Quando minha filha entrou, correndo na sala, ela gritava: "Olha o zumbi, olha o zumbi!" Balançando o papel que estava na mão dela. A professora se assustou, mas o susto se deveu a não ter entendido o que era o tal "zumbi", se era coisa de filme de terror (segundo ela, alguns alunos já são expostos ao seriado "The walking dead" em casa). Como a minha filha balançava o papel, ela não conseguia entender que desenho tinha ali. Por isso o susto. Além disto, o momento em que minha filha chegou (20 minutos após ter tocado o sinal - nos atrasamos), ela já estava no meio de uma atividade com as crianças - uma contação de estória. Então, além do impacto da chegada (ela já está acostumada com as "entradas triunfais" da minha filha, mas os gritos "zumbi" tornaram tudo diferente), ela também olhou para a foto de Zumbi do Palmares e, apesar de ter entendido que se tratava da consciência negra, optou por não mostrar naquele momento. Ela queria pesquisar mais, para que a apresentação para a turma fosse mais rica. Como havíamos questionado a falta da atividade específica do dia da consciência negra para a turma do maternal (que realmente não houve), ela respondeu no caderno. Ela contextualizou o dia: Tinha sido um dia um pouco turbulento na sala. Um amiguinho havia se machucado, ela ficou muito focada em ajudá-lo. Além disto, a missão de contar para a turminha, neste mesmo dia, que os pés de feijão que eles haviam plantado, haviam morrido no dia anterior. O recado foi escrito no meio da turbulência. E, por isto, ela não citou que, apesar de não ter uma atividade específica, eles iam andar com as crianças, pelos corredores da escola, a fim de apresentar os trabalhos das outras turmas. E que ela achava que eu sabia que os trabalhos que chegam para ela em sala de aula nunca são trabalhados no mesmo dia. Ela sempre guarda, leva para casa para agregar mais informações e até mesmo estudar os temas e a forma de trazer para a turma de forma que eles entendam e realmente absorvam. Percebi também, durante a conversa, que, no calor das minhas emoções, não li corretamente o que ela havia escrito sobre trabalhar a forma das crianças se enxergarem e enxergarem os outros. Eles trabalham isto durante todo o ano letivo e não somente no dia da consciência negra - embora eu continue acreditando que o enfoque podia ser mais ativo. Trabalham as diferenças físicas e até mesmo os coleguinhas portadores de necessidades especiais. Fiquei triste pela minha má interpretação de texto.
Resumindo: Graças a Deus tudo se tratou de um grande equívoco. Realmente o que eu vi aconteceu EXATAMENTE como relatei. Mas o contexto não foi o que imaginei.
Passado este assunto, prosseguimos o resto da reunião conversando sobre o trabalho de consciência negra e o combate ao racismo nas escolas. Falamos sobre a importância da atitude de prevenção em sala de aula para os pequeninos, para que as crianças não cheguem ao ensino médio já "formadas" racistas.
A coordenadora ouvia tudo atentamente, anotava sites que indicávamos, pegou uma lista, que passamos, com livros de estórias que abordam a etnia negra (Obrigada, Cecília Carvalho e Rosa Margarida). Dividiu conosco muito sobre a visão da escola, sobre como eles tem trabalhado isso na escola. Gostamos do que ouvimos e acrescentamos outras visões. Mostramos uma lembrancinha que uma amiga nos emprestou (obrigada, Andreza Lopes) para agregar material à discussão. Ela gostou muito. Pensou alto: "talvez seja isso que esteja faltando. Estamos trabalhando as crianças, mas não estamos trabalhando os pais." Guardou a lembrancinha (foto), dizendo que ia mostrar à direção da escola e às outras coordenadoras da escola. Enfim, foi uma ótima reunião.
Saímos de lá com a certeza de que a melhor coisa que fizemos foi buscarmos o diálogo com a escola.
Mais tarde, quando fui buscar minha filha na escola, encontro com a professora, que me pegou de conversa. Uma conversa inicialmente tensa, pois ela estava preocupada com minha visão sobre ela, sobre o que tinha lido em minha carta. Conversamos muito sobre como quando a gente já sofreu alguma situação forte na vida (como no meu caso o racismo), a gente tende a enxergar as coisas de forma diferente. E que, quando ela leu minha carta, ela entendeu perfeitamente tudo o que eu tinha visto acontecer ali. Ela se colocou no meu lugar. Falei com ela que, apesar do que eu "tinha visto", eu não tinha deixado de ter carinho por ela. Mas que eu PRECISAVA relatar o que vi e que não gostei. Porque não aguento mais passar a minha vida engolindo o racismo calada. Mas que agora, após o diálogo, eu entendi que foi tudo um engano. E que para mim, voltamos à estaca zero. Mas que mesmo que não tivéssemos voltado, mesmo que fosse realmente aquilo, eu não deixaria de amá-la. E foi quando ouvi a frase que mais me tocou: "Sheilla, nós temos o mesmo Pai. Se você conseguiu passar por cima do que você "viu", e continuou aberta a mim, é porque nosso Pai está cuidando de nós." Concordei com ela. Tivemos uma boa conversa, ela partilhou algumas coisas comigo e eu com ela. Ela gastou todo o horário de almoço dela comigo. Quase morri de remorso. Mas senti que valeu a pena. No final da conversa, comentei sobre a repercussão do caso no facebook. Comentei que ninguém conversava mais sobre o caso da escola, e sim que o assunto que havia gerado (e era este o meu objetivo) era o de combate ao racismo. Expliquei o quanto as mães estavam se mobilizando, querendo saber mais, me perguntando tantas coisas que as vezes (confesso) nem sei responder. Ela me disse que, na visão dela, foi plano de Deus eu ter enxergado a situação como enxerguei. Que ela sente que isso tudo pode render bons frutos, que ela iria orar pelo novo rumo que tudo isso tomou e que acredita, assim como eu, que o saldo de tudo isso foi POSITIVO.
No fim de tudo, o que fica para mim, Sheilla, é:
1. Dialogar deve ser PRIORIDADE, principalmente quando se trata de pais X escola.
2. Ainda que a gente veja tudo, precisamos buscar o contexto, entender se realmente aquilo que a gente viu é do jeito que a gente entendeu quando viu.
3. Não deixar "passar batido" algo que lhe é visivelmente errado. O protesto e o diálogo são maneiras válidas e complementares para acalmar ânimos, alinhar expectativas e construir um relacionamento

Fico feliz por não ter guardado mais um episódio no meu coração. Saí de lá me perguntando se muitos episódios que considero racistas, na realidade nem foram. Obviamente, não estou dizendo que sempre é tudo uma coincidência. Lógico que não! Mas, a partir de hoje, serei mais cautelosa quando sentir que fui discriminada. Meu trabalho agora é de perdão às pessoas que me ofenderam, de cura para as feridas que apareceram no meu coração. Para que a minha visão não seja mais nublada (pelas minhas lembranças do passado), ao me deparar com situações que não são o que parecem ser.
Espero que a minha lição, possa servir de lição para vocês também. Sempre conversem, e não se deixem levar pela aparência da ocasião.

Sheilla

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