Quando os olhos se abrem e a nossa vida recomeça

PORQUE MEUS OLHOS SE ABRIRAM NO DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA DE 2013.
Como todos devem ter observado, diferente de todos os outros anos anteriores da minha vida, este ano resolvi pintar minha página do Facebook de "negro", a partir do dia da Consciência Negra. O gatilho para isto tudo foi uma situação que eu e minha filha passamos na escola onde ela estuda, a qual, em conjunto com a escola, conseguimos vencer.
De qualquer forma, o acontecido me levou a reviver meus 35 anos de discriminação pela minha cor de pele.
Me lembrei quando, aos 4 anos de idade, quase a mesma idade da minha filha, fui exposta ao racismo pela primeira vez, ao ser acusada de ser ladra pela minha professora.
Lembrei também quando uma colega de colégio que sempre frequentava a minha casa e nunca faltava aos meus aniversários, virou para mim e me disse que eu era "tão legal que nem parecia negra".
Me lembrei quando, ao passear pelo colégio com meus amiguinhos de maternal, os alunos de séries mais avançadas e também os funcionários, elogiavam minhas coleguinhas, dizendo o quanto elas eram lindas. As mais elogiadas eram as loirinhas. Mas todas eram elogiadas, menos eu, a única negra.
Me lembrei de todas as vezes que disseram que eu tinha cabelo ruim.
Me lembrei quando minhas amigas riam que o meu cabelo não balançava e nem molhava, ao contrário do delas.
Me lembrei de quando fui considerada a segunda mais feia da turma, pelo fato de eu ser negra.
Me lembrei de todas as festas juninas, quando nenhum coleguinha queria dançar com a única menina preta da sala.
Me lembrei de todas as vezes que me olhava no espelho, tentando me imaginar com outras cores de pele, cabelo e olhos, para entender que eu era bonita sim e a única coisa que eu tinha de "errado" era a minha cor.
Me lembrei do dia que perguntei para a minha mãe porque as pessoas não gostavam das pessoas negras e minha mãe não soube responder. E eu insisti em querer dela uma informação, pois tinha sim de haver algo muito errado com a gente, senão todos não iriam estar falando isso.
Me lembrei de todas as aulas de história e que a figura dos negros na história do nosso país e do mundo se resumia em escravidão.
Me lembrei da vergonha que era, nestas aulas de história, eu ser negra e, portanto, originária daquele povo que era tratado pior do que bicho. Eu sentia que todos os meus colegas olhavam para mim, no momento que era ensinado sobre escravidão.
Me lembrei de cada piada "engraçada" sobre negros que já ouvi e tive de aguentar calada, para não gerar um "climão".
Me lembrei de todas as vezes que entrei em uma loja e os vendedores me olharam de cima em baixo, mesmo eu estando muito bem-vestida.
Me lembrei de todas as vezes que as pessoas se referiam à minha beleza como algo sensual, por ser "mulata".
Me lembrei de todas as vezes que as pessoas elogiaram a minha beleza com o intuito de me mostrar que "apesar de negra, sou bonita".
Me lembrei de todas as vezes que minha beleza foi considerada exótica num país onde o exótico deveria ser o loiro de olhos azuis.
Me lembrei de quando mudei para um prédio de classe social mais elevada e fui confundida pelos meus vizinhos com a doméstica da casa.
Me lembrei de cada susto que as domésticas que iam fazer entrevista em minha casa levavam, por ter uma patroa negra.
Me lembrei de cada vez que meus clientes se assustaram ao ver o pedreiro loiro de olhos azuis em minha equipe de obras.
Me lembrei de quando minha filha nasceu e, em diversas ocasiões, fui confundida com a babá dela.
Me lembrei de cada vez que saí com minha amiga branca e seu filho da mesma idade da minha filha, e eles eram considerados gêmeos (e advinha quem era a mãe dos dois?).
Me lembrei de tantas coisas, mas tantas...
Eu teria muito mais do que 365 episódios da minha vida para lembrar.
Foi quando decidi soltar a matraca, e desengasgar tudo o que já devia ter desengasgado durante todos estes anos.
Assim, não só a minha página do Facebook, mas a minha própria vida, foi oficialmente pintada de negro a partir do dia 20 de novembro de 2013.
Sonho com o dia que todos os seres humanos, independente da cor, serão iguais.
Mas por enquanto, tenho plena convicção de que não, NÃO SOMOS IGUAIS. Infelizmente...

Sheilla

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