Feminismo tem cor

Apenas para ilustrar...
Eu, antes de me descobrir mulher negra.
Esta era a melhor pose para a foto.
Tentando ficar bonita...
Uma das diferenças que eu percebo do feminismo branco para o feminismo negro ai, como eu odeio esta divisão, este "recorte", mas sim, ele existe - e não fomos nós que nos recortamos, é a questão da valorização do corpo da mulher. Não estou falando de sexualização da mulher, pois isto nós, mulheres negras, sofremos na mais alta escala. Mas estou falando da valorização da beleza mesmo. 

Ano passado eu vi uma onda feminista incentivando as mulheres a postarem fotos sem maquiagem. Até entendi o lance, mas fiquei pensando em como desejo maquiagens para meu tom de pele, como desejo me ver nos catálogos de produtos vendidos no Brasil como natura, avon, mary kay, etc. Até nas roupas sofremos com isto, pois não termos a "cor da pele" branca. 

Depois que me descobri mulher negra, foi quando me descobri mulher, simplesmente mulher. Foi quando me reconheci bonita e passei a sentir vontade de me maquiar, de me vestir bem. Passei a olhar no espelho e gostar (muito) do que eu via. Finalmente eu olhava no espelho e enxergava ali uma mulher bonita, com tudo perfeito, de forma que eu jamais desejaria ter nascido diferente. Inclusive, passei a querer me fotografar o tempo do todo. Selfies e poses de modelo são mato por aqui. Risos.

A questão do cabelo foi primordial para este meu florescer. Acho que uma mulher que nasceu com cabelos lisos ou ondulados jamais entenderá esta questão capilar. Tanto da dificuldade de libertação, quanto na extrema euforia/alegria que é finalmente descobrir que seu cabelo é perfeito. 


E esta sou eu, depois de me descobrir mulher negra, bonita, pra casar, linda, frágil e poderosa, tudo ao mesmo tempo... rsrs :)
Me descobrir negra foi me descobrir mulher bonita, desejável para um relacionamento estável, e também me descobrir frágil. Sim, ser considerada frágil é um privilégio. Não estou falando da fragilidade que faz com que as mulheres sejam subjugadas. Estou falando da fragilidade que traz feminilidade à mulher, que faz com que a mulher seja desejável para um relacionamento sério e duradouro. Isso é um privilégio social que nos é negado. 

Vejo mulheres brancas lutando contra a questão da fragilidade feminina. Eu, mulher negra estou cada dia mais cansada de ser vista como "guerreira". Quero ser frágil, quero um colo, quero ter o direito de poder chorar sem que me digam que eu "tenho de superar" isso ou aquilo. 

Sim, as mulheres negras sofrem com isto, inclusive no momento mais feminino de toda a mulher: o momento do parto. Sabiam que recebemos, estatísticamente, menos dose de anestesia? Sim, senti isso na pele no dia do meu parto. Vi meu médico brigar com o anestesista para que ele aumentasse a minha dose, pois eu estava chorando de dor. Sim, fui obrigada a ouvir frases do tipo "você tem que ser forte" de enfermeiras em momentos em que eu precisava de ajuda (e não fui ajudada). 

Meu feminismo é vivido ao contrário. Meu feminismo é a luta para ser vista como bonita, frágil e possível de ser amada. Me deu vontade de escrever isso aqui, pois eu sempre falo que nossa luta é diferente das mulheres brancas. E é. Quando eu digo que mulheres brancas, precisam retroceder, para andarmos juntas, não é com o intuito de desmerecer a luta feminista. Mas com o intuito de dizer que, enquanto mulheres brancas já estão lá na frente lutando pela igualdade em relação aos homens, nós, mulheres negras, ainda estamos lutando para sermos vistas como seres humanos, tanto quanto as brancas.

E todo este desabafo porque vi, em um grupo de cabelos (pois é, grupo de cabelos), este artigo que muito me contemplou, principalmente no final: http://mdemulher.abril.com.br/estilo-de-vida/gloss/vantagens-certeiras-para-quem-assumir-o-cabelo

Sheilla

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