CANJERÊ - Festival de Cultura Quilombola de Minas Gerais: meu depoimento

E NÃO FALEI NEM A METADE...
Tanto tempo de luta em rede social (dois anos para ser mais exata) e finalmente resolvi partir para a vida real. Participar de encontros, festivais, visitar museus, ler mais, enfim: buscar o contato real com meu povo.
Finalmente tomei a decisão e fui ao CANJERÊ - Festival de Cultura Quilombola de Minas Gerais (http://migre.me/s5G4R)
Eu queria me encontrar ali, deixar de me sentir “a cota” dentro de um espaço. Vida de negro nascido na classe média não costuma ser fácil – sempre nos sentimos solitários. “Agora sim, estarei entre os meus”, pensei.
Estava tudo lindo...
Percebi a quantidade de quilombos que existiam em Minas Gerais! Arturos (Contagem-MG), Ascaxar (Dom Joaquim-MG), Baú, Ausente, Fazenda Santa Cruz, Queimadas e Vila Nova (Serro-MG), Brejo dos Crioulos (São João da Ponte-MG), Roça Grande (Berilo-MG), Buraquinhos, São Felix e São José do Barro Vermelho (Chapada Gaúcha-MG), Buriti do Meio e Bom Jardim da Prata (São Francisco-MG), Carneiro, Água Limpa de Cima, Água Limpa, Santa Cruz e Água Preta de Baixo (Ouro Verde de Minas-MG), Carrapatos da Tabatinga (Bom Despacho-MG), Chacrinha dos Pretos (Belo Vale-MG), Espinho (Gouveia-MG), Gurutuba (Jaíba-MG), Indaiá e Barro Preto (Antônio Dias-MG), Ivo (Braúnas-MG), Mangueiras e Manzo Ngunzo Kaiango (Belo Horizonte-MG), Marobá e Marobá dos Teixeira (Almenara-MG), Mumbuca (Jequitinhonha-MG), Onça de Cima, Pega, Curral Novo, Almas, Capim Puba e União do Rosário (Virgem da Lapa-MG), Pradinho (Bertópolis-MG), Raiz (Presidente Kubitscheck-MG), Três Barras, Buraco e Cubas (Conceição do Mato Dentro-MG), Sapé e Marinhos (Brumadinho-MG), Alegre (Januária-MG) e Quilombo Praia (Manga-MG).
Pois é! Isso tudo! Também vi algumas apresentações (folia de reis, congado, etc) e fui nas barraquinhas conhecer o trabalho do pessoal.
Até que... Percebi. Eu ainda me sentia “a cota”. Não me sentia parte daquele povo. Tinha vontade de tirar foto para guardar como um souvenir. Se eu fosse parte, não teria esta vontade. Eu estava olhando tudo com uma admiração distante. Não era parte. Ou pelo menos assim me sentia. E comecei a ficar tão triste, como se eu sentisse que eu não tinha lugar. Não sou quilombola, não sou do morro. Onde nasci, não pertenço – sou cota. E me senti neste vazio, sem lugar, sem povo.
Foi quando me abri sobre este sentimento com um amigo e conselheiro, via chat do facebook. E a dica dele foi o que me salvou: “Converse com eles! Procure a mulher mais idosa, e uma adolescente. Pergunte sobre a cultura e a importância do festival para elas. Misture-se!”.
Primeiramente tive de vencer minha timidez (sim, sou um pouco tímida às vezes). Mas depois segui o conselho. Foi muito legal! Gravei um vídeo com a anciã falando sobre a vida dela no quilombo e como ela enxerga o movimento negro (depois posto! Tenho de editar o vídeo e me falta tempo). Conversei também com uma linda mulher que conheci, que estava em uma das barracas. Ela não quis gravar, mas me contou histórias sobre a vida do quilombola... Depois escrevo sobre isso também.
As histórias são sofridas, porém bonitas. E, ainda que elas me transmitissem toda a dor gerada pela opressão racista sobre o povo quilombola, ainda assim, de alguma forma as invejei. Elas fazem parte de um povo. Elas têm uma identidade. Eu ainda não. Estava em busca da minha própria. Dividi este sentimento com elas. Elas me acolheram, me convidaram a visitar o quilombo. Quero visitar. Vou visitar. “Quem sabe nas férias”, pensei.
Não consegui ver muita coisa pois a turma que me acompanhava estava cansada e faminta. Decidi: “Amanhã, depois do culto na igreja, eu volto”. E foi o que fiz.
Desta vez, cheguei entendendo melhor a cultura (graças às conversas). Me sentia menos perdida no espaço. E estava mais decidida a absorver melhor cada detalhe do festival. Fotografei muita coisa, filmei, procurei gente pra conversar. Encontrei amigo de facebook, né, Zé Fuinha? Compartilhei minha angústia sobre a busca da identidade com o “Zé” (o chamarei de Zé, mas este não é o nome dele! Hahaha! Figura!). Ele me explicou: “Sheilla, todos nós estamos em busca de nossa identidade no movimento. Esta busca não é só sua”. Conversamos bastante sobre o movimento negro (ele está nesta caminhada há tempos. Ele me apresentou mulheres maravilhosas, que me fizeram sentir acolhida. Me apresentou o Negon (passei vergonha, pois não sabia que ele era famoso! Hahaha), que me convidou a participar de um mutirão na Pedreira Prado Lopes (irei).
Quando dei por mim, me descobri. Me senti parte. Não me sentia mais deslocada, não era mais a cota.
Sim, eu faço parte disto aqui, faço parte deste povo. Cada um na sua individualidade, cada um na sua morada. Mas somos todos parte da mesma história.
No mais, apenas tenho a agradecer pela oportunidade de ter ido neste festival.
Comprei café e mel. Deliciosos, ambos. Arrependi de não ter comprado mais para deixar no estoque. Tentarei encomendar, quando acabar. Comprei também lindos trabalhos feitos de fio de ouro. Não só tive a alegria de incentivar a produção dos irmãos, como me beneficiei dos produtos produzidos com muita qualidade.
E mais do que as compras, saí de lá com a sensação de que apenas o que falta é que nós todos andemos sincronizados com a mesma meta, a mesma direção. Nos falta apenas união. Mas, se for o desejo de todos (ou pelo menos quase todos), sei que será possível.
Ubuntu.

Sheilla

Um comentário:

  1. Quem é Negon ? eu não chei nada sobre, tem algum sobre-nome ou algo relacionado que possa achar ? Queria ver mais fotos x)

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