Para quem falo e o que isso traz de mudança?

Um dia, uma pessoa que admiro muito me impactou com um conselho que jamais esquecerei:
“Sheilla, quando você for escrever, antes se pergunte: 'para quem falo e o que isso traz de mudança?'”
Bem... Parecem duas perguntas simples, mas na verdade não são.
Percorri minhas publicações antigas, as reli. Percebi que não, eu não estava falando com quem eu gostaria de falar. Sim, trouxe mudança. Recebo mensagens praticamente todos os dias, tanto de brancos, quanto de negros. Mas sei que posso melhorar. Sempre podemos, não é mesmo?
Resolvi ser mais eficaz em dialogar diretamente com quem me interessa dialogar: pretos e pretas.
Percebi que antes minhas palavras eram de confronto com brancos. Sim, eram. Eu dizia: “meu papo é com pretos”. Mas as postagens diziam: “vejam, brancos, o que vocês fazem”.
Sei que posso trabalhar a conscientização de outra forma. Não digo que deixarei de fazer as devidas denúncias, não deixarei de apontar as injustiças e o massacre que estamos sofrendo enquanto povo. Mas o farei com o intuito de libertar os meus.
Harriet Tumbman, nascida na condição de escravizada nos EUA, conseguiu escapar do cativeiro e se tornou uma grande abolicionista. Ela não se contentou com sua própria liberdade. Ela somente se sentiria totalmente livre no dia que o seu povo também fosse liberto. Visto isso, ela, grande estrategista, realizou treze viagens de resgate, para libertar outras pessoas escravizadas. E teria libertado outros, se assim pudesse.
Quando li a história desta brava mulher, entrei em profundo questionamento sobre mim mesma. Como ela se arriscou! Treze vezes se arriscou. Mas ela sabia que sua vida não seria completa se não fosse na companhia do seu povo.
Assim me sinto hoje, vivendo em um bairro branco, ao olhar para meus irmãos que ainda padecem pela desigualdade social e o principal: que ainda não conhecem a riqueza da cultura africana.
Faço pequenos movimentos na vida real. Como hoje, ao chegar na escola de minha filha e passar muito tempo dançando com uma menina linda, 3 anos de idade, cor de ébano. Eu ia falando os nomes das princesas africanas que eu conhecia... Perguntava a ela se ela conhecia. Ela respondia [infelizmente] que não. Eu contava um pedacinho da história e depois dançávamos enquanto eu cantava: “Você se parece com ela! Você se parece com ela!”. São pequenos gestos, pequenas ações, com a esperança de estar plantando semente não só no coração dela, mas das outras crianças que nos assistiam naquele momento alegre.
Bem... Fora estes pequenos gestos, ainda não sei bem qual rumo irei tomar no sentido de trabalhar pela libertação dos que estão cativos. Tenho algumas idéias, alguns planos. Mas ainda não sei ao certo o que farei. Mas não, não ficarei aqui parada, entre aqueles que exterminam o meu povo. Meu lugar é entre os meus. E ali vou estar. Não temerei por minha vida. Me arriscarei. Pois ,enquanto os meus não forem livres, eu também não serei.
Vocês perceberão uma mudança temática em minha página. Esta mudança é consciente.
A nova visão é completamente voltada ao meu povo, aos que amo. Quero fazer parte deste processo que começou em 1549, quando o primeiro barco sanguinário aqui atracou. Nosso povo nunca se conformou, nunca se calou, nunca deixou de lutar.
Resgatarei a memória de minha ancestralidade e lutarei até o último dia de minha vida ou até que o último afrodescendente seja liberto da opressão.
Que Deus me abençoe de ser uma das peças de onde virá a mudança que tanto almejamos.
Ubuntu.

Sheilla

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Instagram