Taís Araújo e o direito à acolhida

“Aos nossos mais implacáveis adversários, diremos: ‘Corresponderemos à vossa capacidade de nos fazer sofrer com a nossa capacidade de suportar o sofrimento. Iremos ao encontro da vossa força física com a nossa força do espírito. Fazei-nos o que quiserdes e continuaremos a amar-vos.  O que não podemos, em boa consciência, é acatar as vossas leis injustas, pois tal como temos a obrigação moral de cooperar com o bem, também temos a de não cooperar com o mal. Podeis prender-nos e amar-vos-emos ainda. Assaltais as nossas casas e ameaçais os nossos filhos, e continuaremos a amar-vos. Enviais os vossos embuçados perpetradores da violência para espancar a nossa comunidade quando chega a meia-noite, e, quase mortos,  amar-vos-emos ainda. Tendes, porém, a certeza de que acabarei por ser vencidos pela nossa capacidade de sofrimento. E, quando um dia alcançarmos a vitória, ela não será só para nós; tanto apelaremos  para a vossa consciência e para o vosso coração que vos conquistaremos também, e a nossa vitória será dupla vitória´” Martin Luther King

Este discurso do pastor Martin Luther King me impactou totalmente quando o li. Eu jamais encontrei alguém que, em tempos de guerra, vendo morrer seus familiares, filhos, amigos, permanecessem com esta postura de amor diante do invasor assassino.

Estes dias fiquei observando a repercussão do caso da atriz Taís Araújo. Não pretendo me ater aqui à atitude [previsível] das pessoas brancas durante o ataque e após o ataque. “Mais do mesmo”, eu diria. Mas, o que tenho a dizer é em relação à reação das pessoas negras e engajadas no combate ao racismo. Em especial mulheres feministas, as quais buscam praticar a sororidade.

Sei que o que tenho a dizer não será visto com bons olhos por todos. Mas em momento algum eu busquei ter um discurso que agradasse a todos aqui em meu espaço. Mas sempre falei impulsionada por minhas reflexões pessoais a respeito do que observo ao meu redor, dentro do que eu creio ser correto e justo. Não estou aqui para agradar, mas sim para falar o que tem que ser falado.

Bem... O que observei foi que a atriz Taís Araújo foi severamente atacada por racistas, com comentários do mais baixo nível. A reação da mesma - ao invés de botar panos quentes, como vemos em tantas situações no hall dos famosos - foi de dar um belíssimo exemplo a todos aqueles que sofrem constantemente este tipo de ataque:
1- Não se sentiu envergonhada sobre si mesma. Ao contrário, apontou a vergonha para os ofensores.
2- Fez a denúncia na polícia.
3-  Não adotou uma postura de violência, ou seja, não combateu o mal com o mal, mas sim com o bem.
E é sobre este terceiro ponto que venho falar.

Atualmente, a atriz está encenando, junto com seu esposo, uma peça teatral chamada “O topo da montanha”, que retrata uma conversa do pastor Martin Luther King e a camareira do hotel onde ele se hospedara antes do dia da sua morte.

Ainda não assisti à peça (mas pretendo), mas é fato que eles estudaram muito os personagens. E, como bons atores que são, buscaram todas as formas de incorporarem estes personagens para que sua atuação fosse o mais realista possível.

Sabemos bem que, apesar de uma postura diferente do militante Malcom-X, o reverendo Martin Luther King Jr teve grande peso no movimento negro dos EUA. Ele conquistou muitos seguidores e ainda obtém esta admiração de muitos por causa de seus discursos pacíficos, mas não necessariamente menos eficazes.

Taís Araujo não quis adotar a política de Malcom-X (que discursa sobre o revide, a guerrilha). Ela está no auge da reflexão e entronização de Martin Luther King. Ela adotou a política do amor. Isso não a impediu de tomar as providências corretas em relação ao crime, o que a torna alguém que não se rende ao inimigo, ainda que demonstre uma atitude de benevolência em relação ao seu agressor. É o direito dela tomar o posicionamento que ela deseja. E é um DEVER nosso apoiá-la, neste momento de sofrimento.

Eu percebo que aqui no Brasil a população negra ainda é muito dividida e ainda guerreia muito entre si. Aliás, isso também é efeito colateral dos tempos de exploração do trabalho escravo, quando William Lynch, um homem que prestava serviço de consultoria para donos de pessoas escravizadas, escreveu uma carta dando orientações de como dividir a população escravizada, de forma a perpetuar esta guerra interna por anos e anos (tal como observamos até os dias de hoje).

Como irmãs negras, devemos cultivar em nossos corações o sentimento de sororidade. E os homens negros, devem cultivar a postura de respeito à irmã que passa por esta dificuldade. Não cabe a nós o papel severo de conduzi-la à um novo processo de linchamento virtual. Ao contrário. Ela é nossa irmã. Ela deve ser amada, acolhida e ajudada.

Sabemos como é sofrer um ataque racista. Nossas reações são diversas. Desde a reação de rebater, até a reação de inércia diante do absurdo. Sabemos como é vivenciar isto. E sabemos como é difícil neste momento, além de ter que lidar com as feridas internas provocadas por esta selvageria, ainda ter que lidar com as críticas a respeito da nossa reação.

Que nós, negros e negras, saibamos cuidar dos nossos. Não precisamos ser iguais. Não precisamos pensar igual. Precisamos nos unir e fazer das nossas diferenças, da nossa diversidade, algo que nos fortaleça.

Que a carta de William Lynch seja queimada nas raízes da cultura do nosso povo para todo sempre, amém.

“Quando tratamos bem quem nos faz mal, não lhe damos muita alternativa; ou essa pessoa muda de comportamento ou fica contra a parede, sem ter como atacar, pelo menos diante dos outros, por conta da atitude benigna e não belicosa que adotamos. A tendência é que se crie um juízo coletivo de condenação sobre o que é perverso” Willian Douglas


Sheilla

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