Pertenço ou não-pertenço? Eis a questão!

Outro dia, compartilhei, em meu facebook, uma reflexão da página “Queens of Africa or Barbies?”, que me fez me enxergar, pois falava sobre a solidão e falta de identidade dos negros de classe média alta:
Quando estou com os meus amigos brancos eu sei que não sou como eles; com os meus amigos negros da periferia sinto que tenho mais privilégios que eles; quando frequento os mesmos lugares onde tem pessoas de classe média alta também não me vejo.  Na verdade, não sei o que é pertencer totalmente a um grupo.”
Aquilo me atingiu em cheio, pois é algo do qual sempre sinto, desde a minha infância. Sempre olhei para a população periférica e de rua com uma certa “saudade do meu povo”, ao mesmo tempo que eu tinha consciência de que socialmente não fazia parte daquela comunidade.
Os anos foram se passando e aos 34 anos, quando meu despertar racial se iniciou, esta necessidade de pertencimento passou a ficar mais aparente em meu coração. Uma sede começou a tomar conta de mim. Passei a falar sobre racismo e fui rechaçada pelos meus “amigos” brancos. Muitos se afastaram. Outros falavam de mim pelas costas, ou me cumprimentavam com um sorriso amarelo. Precisei mudar de igreja, pois o clima se tornou hostil. E a solidão, que já era evidente desde a infância, se tornou ainda mais óbvia e inquestionável. Foi quando resolvi buscar os meus, iniciando pelas redes sociais. Busquei grupos com temas sobre negritude, adicionei ao meu círculo virtual de amigos pessoas com as quais eu me identificava. Era quase um vício adicionar pessoas e torcer para que elas me aceitassem como amiga. E daí, fui me aproximando... Agora eu falava e era ouvida e “curtida”. Aos poucos, fui cansando de falar com cuidado com os brancos. Independente da forma que eu falasse, eles não me ouviriam e me chamariam de agressiva, radical e (pasme!) racista. Parei de me preocupar com a opinião deles. Me importava com o feedback dos meus amigos pretos.
Até que conheci dois grandes amigos e conselheiros, o Robespierre Dantas e o Fabiano da Silva. Eles me ensinaram primeiramente que a minha fala deveria se direcionar ao povo preto. Minhas falas deveriam ajudar as pessoas a atingir aquilo que eu havia atingido (ou ainda estou atingindo, talvez) que é o despertar racial. Aos poucos meu discurso foi mudando.
Já não mais busco ensinar a branquitude a mudar sua forma de pensar sobre os negros (isso é tarefa deles, e não minha), mas passei a buscar acender no coração de pessoas negras o resgate de sua humanidade e o conhecimento da nossa história. Fabiano me aconselhou (e ajudou) a montar o blog. Robespierre me aconselhou (e ajudou) a gravar vídeos e a montar o canal do YouTube. Passei a entender a importância de bons conselheiros, principalmente os apaziguadores. Creio que há alguma raiz africana nisto, do aconselhamento e na importância de se ouvir os mais sábios.
À medida que meu discurso foi mudando, meu sentimento em relação ao povo preto também passou a ser moldado... Eu queria mais. Amizade e “curtida” em Facebook é legal sim. Nos faz crescer, aprender e ter apoio. Mas eu queria contato, conversa, queria meu quilombo real e não somente virtual. E foi quando comecei a desejar freqüentar todo e qualquer evento que houvesse em minha cidade (e fora dela, quando possível).
E se eu pudesse dar um conselho àqueles que, como eu, sentem a dor do não-pertencimento, este seria: busque freqüentar os espaços que pretos freqüentam. Busquem em suas cidades institutos e/ou bares e restaurantes que reforcem a cultura africana. Lá estarão os pretos. Vá à eventos, vá a sambas, aproxime-se de propostas de trabalhos voltados para população carente, sente para conversar com algum morador de rua. Vá onde os pretos estão! E quando lá chegarem, vençam a timidez. Se apresente, converse com todos os que se mostrarem disponíveis a conversar. Uma forma que encontrei de vencer a timidez foi entrevistando os organizadores dos eventos para publicar em meu blog. Com isso fui conhecendo mais não só a essência de cada evento, como também as pessoas ali envolvidas.
É interessante que quanto mais me aproximo, mais pertenço. Quando mais estou lá, mais percebo que a classe social não nos distancia. Ao contrário, posso usar a minha formação e meus recursos em prol do meu povo.
Fiquei sabendo outro dia que Angela Davis era de classe social alta e foi usando sua formação acadêmica e aprendizados em viagens internacionais que ela liderou um grande movimento nos EUA em prol dos presos políticos. Ela abriu mão dos privilégios sociais que sua classe econômica a proporcionava, perdeu seu emprego na universidade onde lecionava por não abrir mão de sua luta racial, foi presa, perseguida, mas não voltou atrás. Ela sabia o povo ao qual ela pertencia e não abriu mão disso.
Assim eu também não abro mão. Sei de qual povo faço parte e farei de tudo para me aproximar mais e buscar qual o meu espaço dentro desta luta.
Que um dia eu possa ser como Angela Davis (ou algo próximo disso... risos) e você também. Todos nós temos um lugar, a partir do momento que reconhecemos onde pertencemos.
Para o pessoal de Belo Horizonte: quer começar agora esta busca? Então vamos lá amanhã, domingo, dia 31/jan/2016, de 12h às 15h, no Instituto Todo Black é Power! Veja mais detalhes do evento clicando aqui.
Nos encontramos lá!

Sheilla

Um comentário:

  1. Nossa.. Essa parte de mudar de igreja eu não sabia.. Tô bem :o
    É bem aquilo que conversamos hoje, ás vezes esse mundo joga na nossa cara que não é nosso. Mas estar "aí dentro" pode ser a melhor forma de incomodar!

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