Madame Satã em BH!

“O desabafo do oprimido”. Este seria o nome que eu sugeriria para esta peça, não fosse o nome óbvio e perfeito de “Madame Satã”.


Desde a chegada à bilheteria, quando os atores se misturam com o eclético (e alternativo) público, vestidos de gigolôs e prostitutas, se esgueirando pelos cantos e entoando um samba de excelente qualidade, a sensação que temos é que estamos adentrando no universo da região boêmia do Rio de Janeiro, por onde passa a história deste famoso personagem, a Madame Satã, que tinha por nome João Francisco dos Santos.


Nascido no ano de 1900, este homem escancarou para o Brasil muitos assuntos que até os dias atuais são considerados tabus tais como: como homossexualidade, transexualidade e negritude.


Por serem estes assuntos tão atuais e - finalmente! – pautados em nossa sociedade, os autores desta peça conseguiram com maestria entrelaçar os discursos vigentes no ano de 2016 com os discursos dos anos vividos por Madame Satã no início do século XX.


Assistir a esta peça foi como se eu fosse transportada para dentro do mundo suburbano, e vivenciasse, sem filtros ou censuras, os momentos de conflito, diversão, cumplicidade e tristeza entre os que ali viviam.


Através das fortes cenas da vida de prostitutas, presidiários e transexuais tão rejeitados socialmente e sem defesa alguma, pude como nunca antes em minha vida, amá-los com todo o meu coração. Suas reclamações fortes e verdadeiras sobre assuntos como cotas raciais, homofobia, hipocrisia religiosa cristã, racismo e machismo,  foram “cuspidos e escarrados”, diante do silêncio cúmplice da imensa platéia que lotava o teatro SESC Palladium em Belo Horizonte.













Em muitos momentos eu, como cristã, senti o incômodo em ouvir a encenação dos vergonhosos discursos ditos por tantos representantes públicos e midiáticos dos evangélicos no Brasil. Este incômodo se deu pela minha tristeza em sentir, o quanto este discurso hipócrita e reacionário tem massacrado pessoas de carne e osso que simplesmente desejam serem ouvidas, acolhidas, amadas e respeitadas. Minha garganta deu um nó, senti vontade de orar naquele momento e pedir perdão a Deus por toda a humanidade que com sua maldade, em busca de estabelecer padrões que ninguém consegue seguir, acaba contaminando a todos com sofrimento, angústia e desamor.


Senti muito amor pelos marginalizados, ao “entrar” naqueles cabarés e presídios ali representados de forma tão vívida no palco.


Esta peça foi um misto de reflexões sociais e gritos abafados pela sociedade, tendo Madame Satã como protagonista, não só de sua própria história, mas também da história de tantas outras pessoas do nosso país (e do mundo). Não haveria personagem melhor para protagonizar este grito.
É triste constatar que o discurso social não mudou muito desde os tempos de Madame Satã (ou antes), até os dias atuais.


Mas ao mesmo tempo, percebo que a cada dia que passa, mais e mais pessoas tem falado sobre os diversos tipos de discriminação. É como uma panela de pressão, pronta para explodir. A pressão está aumentando, o assunto já está em pauta na sociedade e é apenas uma questão de tempo até que a “tampa se abra”, soltando o grito de todos aqueles que ainda estão aprisionados aos moldes impostos a esta sociedade em que vivemos.


Aos autores, diretores, elenco e todos os outros que fizeram parte da montagem da peça, um muito obrigada!

As próximas apresentações acontecerão nos dias 5 e 6 de março, no C.A.S.A. (Centro de Arte Suspensa Armatrux).
Compre seu ingresso aqui: http://goo.gl/oXLUIr
Mais informações: https://www.facebook.com/events/1512315365740559/
E deixo um agradecimento especial ao Evandro Nunes, um dos artistas que encenou Madame Satã, que aceitou o meu convite para um delicioso bate-papo no café-da-manhã em minha residência, momento este que divido com vocês através de um vídeo, que por ser muito extenso, dividi nas quatro partes a seguir:










Sheilla

Um comentário:

  1. Incrível. E é bem o que você disse, as vezes criamos barreiras em conhecer histórias lindas e que tem tanto a nos ensinar! Adorei a entrevista.

    ResponderExcluir

Instagram