A família nozinho

Toda vez que eu penteio o cabelo da Sara, faço questão de reforçar o quanto ele é bonito, conto a ela o quanto ver o cabelo dela foi importante para que eu descobrisse a beleza do meu próprio cabelo, o quanto ela me ajudou, conto a ela o significado de blackpower (poder do negro), e ela sempre ama estas histórias.
Na hora de desembaraçar, quando vejo que está doendo, eu descontraio. Imito as vozes da "família nozinho", que é uma família que insiste em habitar no cabelo dela, pois amam as voltas dos cachos formando os nós (daí a família nozinho). Ela morre de rir e se esquece do incômodo de desembaraçar e aliás, faz questão que eu continue desembaraçando só para se divertir com as aventuras desta simpática família.

Bem... Esta é só a introdução...
Hoje, enquanto contava alguma das histórias de minha infância, sobre meus colegas de escola que riam do meu cabelo, ficamos achando que eles eram bem esquisitos por causa das falas. Rimos um pouco da maluquice deles acharem problema em um cabelo tão bonito quanto o nosso... E aí, perguntei para ela: "Sara, alguma vez na escola já falaram mal do seu cabelo?"
Sara: na escola não. Mas no inglês sim.
Eu: É mesmo? O que disseram?
Sara: Foi uma menina, a Ana. Ela disse que não queria ficar perto de mim porque ela não gosta do meu cabelo.
Eu: Sério? Que menina estranha. E por que ela não gosta do seu cabelo?
Sara: Ela disse que ele é esgadanhado.
Eu: E você? Ficou triste?
Sara: Eu não. Eu contei para ela a história do blackpower. Expliquei para ela. Aí, ela ficou com vergonha e me pediu desculpas.
Eu: Foi a professora que falou para ela pedir desculpas?
Sara: Foi não. Ela ouviu a história e ficou com vergonha. Aí pediu desculpas.
Eu: E na hora você sentiu vergonha do seu cabelo?
Sara: Claro que não! Ela que ficou com vergonha.
É ou não é para sentir orgulho desta pretinha empoderada?!

Sheilla

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