O relato de uma mãe buscando sua filha na escola...

Homem: Feliz dia das mulheres!
Eu (a diferentona): Feliz, né, não sei não.
(A esposa do homem ri, concordando)
Eu prossigo: Você conhece a história sobre o dia das mulheres?
Homem: Não, qual é a história?
Aí conto que para início de conversa as mulheres negras naquela data ainda eram escravizadas e que aquele dia não me contempla.
Homem: Mas você não é negra. Você é mulata.
Eu: Não, não sou mulata. Sou negra.
Homem (dando risada): Você, negra???
Eu: Sim, negra como você.
Ele ri, meio nervoso, afinal é um pouco mais claro que eu. Não deve se ver negro tb.
E continuo o tema dia das mulheres, explicando sobre a luta do feminismo branco, contando sobre as mulheres que foram assassinadas nesta data e como este dia não é feliz, mesmo para as mulheres brancas. É um dia de relembrar uma luta que começou há tempos e ainda permanece.
Homem (chocado): eu não sabia desta história.
Eu: Por isso é sempre importante conhecermos a nossa história. E te acrescento que jamais você deve chamar alguém de mulato ou mulata.
E dou uma nova aula de história, explicando sobre a a violência que há neste termo.
Eu: Para você ver a importância de se conhecer a nossa história. Às vezes temos falas que são ruins, mas nem sabemos por desconhecimento.
Neste momento percebo que todas as pessoas do recinto estavam me ouvindo. Eu estava palestrando sem ter sido convidada.
E prossegui, falando sobre algumas falas racistas e machistas que são socialmente naturalizadas...
Moça loira da "platéia": eu acho sua beleza tão linda. Sua boca, seu nariz, seu cabelo. É tão diferente!
Eu: Na verdade, eu não sou diferente. O meu tipo de beleza é de mais da metade da população do país. Se formos analisar, a sua beleza é diferente e exótica no país.
A moça fica sem graça, meio pensativa. Refletindo mesmo.
Entao, ciente que tinha cumprido a minha missão, resolvi finalizar a conversa: O que digo para vcs é um conhecimento que adquiri há pouco tempo atrás, após estudar a história do nosso país. E se estou aqui falando estas coisas para vocês é porque eu acredito que precisamos conhecer mais sobre a nossa história, refletir sobre ela e passar para a frente. Conhecimento é algo a ser compartilhado. E como é bom dividir conhecimento, né?
Todos (pensativos): É verdade...
E assim, sigo caminhando e lutando e seguindo a militância da vida.
PS.: Eu nunca me senti tão leve para falar sobre o tema. Falei com doçura pois realmente senti amor pelas pessoas que ali estavam. E eles estavam sedentos em ouvir. Ninguém demonstrou incômodo. Apenas aquele desconforto de quando a gente tem uma reflexão nova... Mas nada de "climão". Que Deus continue me abençoando para sempre falar com amor e doçura, a fim de atingir o coração (e não o ego) das pessoas.

Sheilla

2 comentários:

  1. Eu acho que ainda estou na fase do falar exaltada, talvez até com ódio... Mas talvez isto seja fruto da minha ansiedade em querer falar mas sem saber como, sem saber exatamente o que. Que um dia possa também falar com amor... Obrigada por compartilhar!

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    1. Querida Thais. Não se culpe. A reação de quem é agredido costuma ser diversa mesmo e isso não é culpa do agredido, mas sim do agressor. Quem agride jamais deve definir como o ofendido deve reagir e o agredido jamais deve se culpar de suas reações...
      Mas sim, agir com suavidade, quando esta suavidade vem do nosso coração e é real, nos faz sair melhor com a gente mesma. Um grande abraço!

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