Café com as pretas

Segunda-feira, dia 11/04, aconteceu no Instituto Todo Black É Power o primeiro "Café com as Pretas", cujo objetivo era trazer a tona um tema tão pouco discutido em eventos e rodas de conversas: Como desconstruir o machismo do homem negro?

O encontro foi denso, impactante e ao mesmo tempo reconfortante. Corações foram rasgados ali. Histórias foram contadas. Chorei, sorri, desabafei.

O interessante  é que eu tinha uma visão muito rasa sobre o tema "Relacionamento Abusivo".

Para mim, um relacionamento abusivo se dava somente entre o "homem ogro" e uma "mulher submissa". De um lado, o "homem ogro", aquele grosseirão que machuca explicitamente a mulher com termos grosseiros ou violência física, não deixando a menor dúvida de sua intenção em agredir a mulher. E de outro lado, a "mulher submissa", aquela pessoa frágil, indefesa e com baixa-estima.

Não que não existam estes casos. Existem. Mas as mulheres que estavam ali não tinham este esteriótipos! As mulheres que estavam ali eram lindas, estudadas, inteligentes, fortes, trabalhadoras, auto-suficientes, conseguem se defender sozinhas, marcante personalidade, verdadeiras rainhas. Sabe aquele perfil de mulher que você NUNCA acha que vai sofrer um abuso? Pois é. E a presença destas mulheres no encontro me fez entender, através de grandes exemplos, que realmente a culpa do abuso nunca é da mulher, seja ela como ela for, com a personalidade que ela tiver. 

Via Natitun
Naquele evento descobri que esta é a nuance mais perversa do relacionamento abusivo: o homem abusivo tem o dom de manipular a mente da mulher de forma a levá-la a acreditar que há uma razão naquele abuso. O lobo às vezes vem fantasiado de cordeiro - e o homem abusivo também. E por causa desta máscara, muitas vezes mulheres fortes e empoderadas caem na armadilha e, quando vêem que estão lá dentro, têm muita dificuldade em sair.


É válido lembrar que é necessário que os homens sejam educados para não abusarem, e não as mulheres educadas a se fortalecerem para não serem abusadas. A responsabilidade sobre isso nunca, nunca, nunca será das mulheres, mas sim daquele que oprime: o homem.

Enquanto todas falavam, uma pergunta ecoava em meu coração: Por que? Por que as mulheres se submetem a homens abusadores?

E, me corrijam se eu estiver errada, apenas uma resposta me vinha à mente: nós, mulheres, necessitamos receber amor, assim como qualquer outra pessoa.

Mas, em uma sociedade machista, fomos criadas para apenas dar amor. O "receber amor" direcionado à mulher, em uma sociedade patriarcal, é uma "concessão bondosa" daqueles que detém o poder: os homens.

Alguns homens são mais bondosos, e concedem amor da forma que deve ser concedido, o amor real.

Outros (abusadores) impõem regras para que este "amor" seja concedido. Mas na verdade, isto que é oferecido não é amor. O nosso conceito de amor é deturpado socialmente, pois nós mulheres (especialmente mulheres negras) somos educadas a acreditar que devemos receber o mínimo que nos derem e que isso é amor. Mas isso não é amor, e sim um jeito de mendigar um pouco de afeto através da posse do homem em relação à mulher. Isso definitivamente não é afeto de fato. Este suposto afeto é apenas uma forma de controle velado e por isso muito perigoso.

Metaforicamente falando, o amor concedido pelo homem abusador/controlador é como um suco em pó sabor morango. De longe, até parece morango, mas se você olhar com mais cautela perceberá que obviamente não é. Nem sabor de morango tem.

Não se engane!!! Não há amor neste tipo de relação. O único amor que existe ali é o amor do homem direcionado para ele mesmo, uma vez que toda a relação é centrada nas necessidades do homem ao mesmo tempo em que as necessidades da mulher são desconsideradas. É um falso afeto, um falso cuidado, totalmente direcionado para satisfazer somente a uma das partes da relação.

Ao refletir sobre todos os exemplos de relação abusiva, cheguei a algumas reflexões que agora divido com vocês:

Via Natitun
1- O amor mais importante direcionado a nós mesmas que devemos dar importância é aquele que vem de Deus (para quem Nele crê) e aquele que vem de nós mesmas. Ninguém além destas duas pessoas (Deus e nós mesmas) saberá como verdadeiramente te amar. Então, antes de buscar amor de alguém, ame-se!

2- É muito bom ser amado por outra pessoa (amigos, parentes, amantes). Mas JAMAIS devemos mendigar este amor. Como diria a frase: "Só vale morarmos em alguém se não nos ausentarmos de nós."

3- Há vários tipos de homens abusivos. Todos tem uma (ou mais) característica marcante que o torna abusivo. Nenhum dos exemplos que ouvi ali reunia todas as características do homem que oprime. Portanto, fique atenta: muitas vezes você ouvirá ou lerá relatos de mulheres abusadas e pensará que o homem com quem você vive não é assim, portanto não é abusivo. Mas as características do homem abusivo e as sutilezas aí envolvidas são diversas... Não se engane! Tentarei, a partir de hoje, colher relatos de mulheres que sofreram abusos de diversas nuances para que fique fácil a todas identificá-los. O que você precisa fazer é estar sempre alerta ao seu relacionamento, a fim de entender quando você está sendo infantilizada, inferiorizada (ainda que de forma sutil) e tendo seus sentimentos e vontades ignorados dentro da relação.

4- Por mais que seja difícil aceitar que você está em um relacionamento abusivo e por mais que se queira relativizá-lo, a negação sempre te machucará mais do que aceitar a verdade e a passar a lutar pela liberdade.

Via Natitun
5- A liberdade, quando reconquistada, te torna ainda mais forte e alerta para possíveis futuros relacionamentos.

6- Ouça suas amigas e principalmente as ex-companheiras do seu parceiro, quando elas te alertarem de algo. Fiquem atentas! Tirem o sentimento de rivalidade tão incentivado entre nós neste sistema, e dê ouvidos à quem tenta te alertar!

7- Precisamos falar mais sobre isso, muito mais do que já falamos. Divulgar relatos e incentivar mais eventos como estes. Isso abre olhos, liberta mulheres.

8- Para as mulheres que estiverem nesta situação: busquem apoio de outra mulher. Conseguir vencer isso sozinha é praticamente impossível e o apoio de uma amiga é primordial para que você supere isso com mas facilidade e leveza. Busque também amparo psicológico, através de um profissional e, se necessário, denuncie!

9- Se alguma amiga em uma relacionamento abusivo te procurar para obter amparo, não a critique e muito menos justifique o abuso que ela sofreu como se causa fosse a atitude dela na relação. Nenhum comportamento da vítima, por pior que pareça, justifica a agressão. Saiba acolher sem críticas e sem julgamentos. Apenas a apoie.

No mais, ainda sobre o evento, o que achei mais interessante foi o fato de 3 homens terem se disposto a ir para nos ouvir e para aprender. E sim, eles ouviram (e como ouviram!). Falaram também, tiraram dúvidas e, quando rebatidos, respeitaram nossa fala. Acredito na importância da presença de homens OUVINTES nestes eventos. Afinal, como disse a moderadora do evento (a Dandara Elias): "Dói ter de dizer e reconhecer isso, mas precisamos do apoio e ajuda de vocês, homens, para que consigamos nos libertar totalmente."

E que venham novos encontros, novos eventos, mais participantes e principalmente a mudança que tanto desejamos!

A todas as mulheres, um abraço fraternal. Força! Mais do que princesas, somos rainhas.

Somos rainhas de nossas próprias vidas.

Sheilla

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